ALEKSANDAR ZOGRAF WEB PAGE
WHO IS ALEKSANDAR ZOGRAF?
Tempo de Sonho/Tempo de Guerra
A banda desenhada de ALEKSANDAR ZOGRAF por Chris Lanier

Mesmo que a Jugoslávia não se tivesse auto-desintegrado, Aleksandar Zograf (nome artístico do sérvio Sasa Rakezic) continuaria a ser um artista de banda desenhada interessante. Ainda que não seja perfeito, a bd é um meio propício à captura da estranha textura dos sonhos, simplesmente pela forma como ela torna perceptível e visível o fantástico. Na história desta arte surgem muitos nomes associados a memoráveis obras que resgatam elementos do poço dos sonhos, desde o Pequeno Nemo de Winsor McCay até a artistas dos nossos dias tão diversificados como David B., Rick Veitch, e Jesse Reklaw. Não obstante outras suas características, Zograf ver-se-ia associado a este grupo, pela especial atenção que direcciona a situações psíquicas um pouco estranhas, além de ser o guarda-mor do seu território especializado, o dos "estados hipnagógicos" - a orla entre o sonho e a vigília - na qual Zograf, de um contínuo e cinemático curso de imagens oníricas, as reduz a uma série de "diapositivos" estáticos, imobilizados para serem capturados nos blocos de desenho que o artista acumula na sua mesinha de cabeceira. Zograf é um onírico-horticultor especializado, extremamente diligente no tratamento da greda negra do inconsciente, garantindo-lhe o florescimento de estranhas imagens. O trabalho nesta área está carregado dos choques mágicos produzidos pelas formas do "qualquer coisa" que surge do "nenhuma coisa".
Mas a Jugoslávia auto-desintegrou-se mesmo, e Zograf viu-se a braços com um tema indesejado. Outros artistas já tinham utilizado a bd como modo de reportagem - desde Joe Sacco, Seth Tobocman, Keiji Nakazawa a Art Spiegelman. Zograf estava familiarizado apenas com este último artista quando começou o seu trabalho sobre a ruptura do país. Viu-se obrigado a descrever o que estava a acontecer - a criar não só a partir de "nenhuma coisa", como também a partir da destruição activa de que era testemunha.
O que torna as reportagens de Zograf únicas, de uma textura muito peculiar, é o contínuo fascínio pelos sonhos e pelas imagens proporcionadas pelos mesmos. É uma união impressionante entre tema e sensibilidade. O desastre político torna-se, nas bds de Zograf, habitado por figuras alegóricas distorcidas, as quais se articulam através de uma sequência de detalhes absurdos; o estertor final de uma nação é apresentado por um modo de fazer psicanálise místico e obscuro. E este tem provado ser um modo produtivo de ver as coisas. Nalguns aspectos, há naturalmente algo em comum entre um regime impelido por ódios étnicos e propagandices falsas e a lógica invertida de uma mente sonolenta, exaurida por pesadelos. Há, nas bds de Zograf (a maior parte publicadas fora do seu país, sobretudo nos EUA e na Europa), aquela particular qualidade de alguém que tenta explicar os detalhes de um terrível pesadelo do qual acaba de despertar - ao transpor o pesadelo para palavras, ainda se pode sentir alguma da sua força opressiva.

Durante os bombardeamentos da NATO na Sérvia, Pancevo, a terra natal de Zograf, foi um dos alvos recorrentes; ele observou, do "conforto" da sua janela de casa, a zona industrial de Pancevo a ser dilapidada várias vezes. Então começou por enviar e-mails a uma longa lista de amigos e colegas de trabalho (inclusive a mim próprio) espalhados pela Europa e América do Norte. Por uma sugestão do artista Chris Ware, começou a desenhar uma tira semanal sobre as suas experiências do tempo de guerra, "Regards from Serbia" ("Cumprimentos da Sérvia"). Foi enviado electronicamente e publicado em várias publicações semanais e revistas alternativas, tal como serializado no site www.thecomicstore.com, chegando mesmo a ser impresso na mesma semana em que fora criado. E isto foi algo inédito na História: uma tira de bd atravessando as linhas de batalha para ser publicada no país "inimigo", à medida que as bombas caíam.
Nestas mensagens de Zograf (coligidas mais tarde em "Bulletins from Serbia" - "Boletins da Sérvia"), poderíamos encontrar a sua mesma veia para os detalhes, fossem eles ridículos ou poéticos, que fora utilizada em trabalhos anteriores. Falava-se das imagens da televisão sérvia, que misturavam filmes de guerra jugoslavos antigos, filmes da Disney e imagens reais de reportagens sobre ciganos a arrancar pedaços de metal para sucata de um F-117 da Nato abatido. Mencionava-se a guerra de insultos por emails quando alguns Italianos descobriram os endereços dos pilotos Americanos dos bombardeiros, e enviaram esses endereços a amigos sérvios que viviam em cidades prestes a serem atacadas. Zograf também refere como uma refinaria perto de sua casa foi bombardeada, libertando uma nuvem de fumo que envolveu toda a área; ele e a sua mulher viam, através da janela, "um nevoeiro todo branco, como se o mundo tivesse desaparecido".
Ao ler estas mensagens, eu podia ver novas bds a serem criadas na mente de Aleksandar. Numa espécie de visão, via impressões fantasmagóricas dessas novas bds, e sobre todas elas a ameaça da extinção de Aleksandar, como uma bomba escondida por uma nuvem. Ao ver os trabalhos de Aleksandar desta forma, criadas numa tela de imaginação compadecida, fez com que o óbvio se tornasse ainda mais tangível: que as maravilhosas bds de Aleksandar sobre a guerra se tornem uma espécie de peneirar retrospectivo por entre os detritos, que não valem o custo humano que representam.
O que se segue é uma entrevista que fiz a Zograf; as perguntas foram eliminadas, para que as respostas se articulem sem interrupções.

Entrevista

Eu sempre estive fascinado pela arte produzida em tempos idos, porque os artefactos do passado são as ideias do passado, as quais estão ainda vivas e cheias de energia. A área onde eu vivo é rica em ruínas arqueológicas, e foi o centro de uma civilização neolítica. Não sabemos quem eram estas pessoas, não conhecemos a sua linguagem nem podemos dizer muito sobre a sua religião, mas de vez em quando sentimos uma espécie de radiação que parte de debaixo da terra, uma energia feita com os sorrisos, os amores e ódios, crenças e fés, a força de vida dessas mesmas pessoas. Quando olhamos com atenção para objectos de arte do passado, vemos o quão próximo eles são do sentimento básico, do mistério, duma expressão natural de se ser. Notarás que se podem ver muitos desenhos de cerâmica nas minhas bds. A cerâmica antiga é fascinante para mim por ser um meio de expressão tão velho e nos quais se podem ver desenhos. Alguns dos vasos gregos antigos têm rostos de caricaturas, muito próximas dos estilos que vemos hoje na banda desenhada. Pessoalmente, sinto que faço parte da continuidade de uma velhíssima linha de artistas cujas raízes se prendem com a península dos Balcãs, e a qual está por sua vez associada à cultura pré-histórica e clássica da Grécia. Até o meu pseudónimo, Alexsandar Zograf, demonstra isso: Zograf é um termo antigo utilizado no círculo da civilização ortodoxa grega - e à qual a Sérvia está incluída - que significa muito simplesmente "pintor"; literalmente, significa "aquele que torna coisas vivas desenhando-as". Todos os autores de ícones e frescos na Antiguidade acrescentavam o termo Zograf ao seu nome próprio.
Sempre me senti como alguém que não se sente demasiadamente ajustado ao mundo moderno. Eu gosto dele, até certo ponto, mas no fundo dentro de mim sempre existiu aquela revolta sem palavras contra o mundo das máquinas e contra as instituições que pensam de forma demasiadamente mecânica. Desde miúdo que sou assim, e não sei como é que começou, pois não foi de uma forma conceptualmente intelectual para mim - estes conceitos não surgem quando se tem 8 anos de idade. Simplesmente sentia uma grande animosidade contra o mundo moderno. Eu até tinha medo de máquinas, porque não entendia a forma sistemática de pensamento que as trazia à vida. Em adolescente, eu vivia sob a ideia obsessiva de que "o fim está perto", e que a civilização caminhava para a aniquilação total. Claro, fui demasiado longe nestes temores apocalípticos e mais tarde apercebi-me que exagerara nas reacções. Quero dizer, é óbvio que as máquinas não são demónios, o que antes pensava ser verdade. Isso é demasiado simplista. Demasiadamente romântico. As máquinas também não são anjos nenhuns mas fazem parte do ambiente espiritual dos nossos tempos, não nos leva a lado nenhum fugir delas, tal como não ajuda fugir à realidade. Temos que agarrar o touro pelos cornos!

Comecei por criar bds autobiográficas na segunda metade dos anos 80, bem antes de ter visto qualquer outro trabalho autobiográfico por outros artistas. Simplesmente senti-me levado a me expressar através da bd e, ao mesmo tempo, a desejar experimentar várias coisas com este meio. Pois apesar de me ter apaixonado loucamente por várias séries durante a minha infância, não soube da existência da produção de bd "alternativa" até aos meus 20 e tantos anos.
Talvez isto tenha a ver com o facto de que comecei uma "carreira" de escrita muito cedo, tendo publicado o meu primeiro fanzine aos 16 anos e aos 17 já estava escrevendo para uma revista nacional. A maior parte do que eu fazia era escrever, era disso que eu gostava, as pessoas que eu conhecia pertenciam a esses círculos, e não prestava grande atenção à bd. O meu interesse prendia-se com o jornalismo, que julgava bastante dinâmico, e almejava escrever ambiciosas peças literárias. Na verdade, não estava muito seguro quanto ao que queria fazer na vida, ou que tipo de expressão mais me seria adequado. Fiz uma série de coisas diferentes. Ao mesmo tempo que desenvolvia a minha carreira jornalística comecei a desenhar banda desenhada e a acercar-me ao mundo da animação. Por volta deste tempo ganhei um emprego num estúdio de animação em Belgrado e trabalhei como um (pobre e confuso) desenhador de cenas intermédias.
Eu experimentava com escrita e arte. Concluí então que algumas das minhas peças literárias mais curtas funcionariam bem como bd. Depois disso, vi alguns dos livros de Robert Crumb e de outros artistas que trabalhavam no campo autobiográfico. Aos poucos chegava à conclusão final de que me sentia confortável em comunicar observações profundamente pessoais sob a forma de bds. De certa forma, parecia-me fazer parte do processo de encontrar a minha própria voz e nível de expressão. Ao mesmo tempo, vivendo num país que se encontrava numa grave crise, catastrófica mesmo, era constantemente chocado pelo que via à minha volta, as guerras e loucuras, e parecia-me natural descrever essas circunstâncias e os meus sentimentos sobre as mesmas com bds.

No início do anos 90, as minhas histórias estavam a ser publicadas fora do país, ao princípio sobretudo em revistas alternativas no Reino Unido e Canadá. Sempre que publicava uma história numa antologia ou revista de bd, recebia os exemplares de contribuidor e essa era uma forma excelente de aprender e obter informação sobre a cena da bd fora da Jugoslávia... Comecei a corresponder-me com vários artistas e editores estrangeiros, que me ajudaram a receber muita informação sobre o que se passava no mundo da banda desenhada. Basicamente, a minha ideia era saltar por sobre as fronteiras - eu vivia num país que tinha estas dificuldades todas e, mais importante, eu estava numa situação frágil, sem um emprego regular, sem quaisquer tipo de economias. Parecia não haver sítio para onde me virar. Mas ao invés de me tornar deprimido, que era o que de mais fácil se apresentava (e às vezes irresistível), desejei fazer algo construtivo. Fazer bd era o mais óbvio, mas a maior parte das revistas dentro da Jugoslávia nas quais eu colaborava desapareceram assim que a guerra começou. Então tinha mesmo de saltar a falha geográfica e cultural, e publicar o meu trabalho em países que jamais visitara antes. E assim foi, um tipo confuso, no meio dos Balcãs, a enviar por correio as suas coisas a editores nos Estados Unidos, e sendo publicado aí às vezes, nesse país de grandes carros e frigoríficos a abarrotar até à medula. Mas acho que isto não teria sido possível se eu não me tivesse envolvido seriamente nesta acção. Na verdade, ainda me lembro do sonho que me fez aperceber desta possibilidade. Foi um sonho simples, fragmentado, nada dramático que tive mais ou menos um ano antes do começo da guerra, e antes de ter publicado qualquer coisa fora do país. Neste sonho, vi um jornal britânico e, quando o abri, encontrei um artigo escrito por mim nas suas páginas.
É tudo. Pareceu-me algo ridículo na altura, especialmente porque eu era um introvertido, que não se adaptava nem à sua terrinha, quanto mais a participar nos mass media de um ambiente estrangeiro?... Mas acredito que nesse sonho eu tenha tido esta pontinha de percepção, que me levou à ideia de estar pronto e decidido a enviar o meu trabalho (em bd) a editores estrangeiros. Isto apesar de parecer um conceito disparatado à minha mente acordada, e nem sequer me lembrar deste sonho até bem depois de publicar fora.

Eu sabia da existência do "Maus" do Spiegelman antes de ter iniciado o meu trabalho sobre a guerra. Mas acho que me baseei mais nas minhas próprias experiências pessoais, fui como que empurrado pelas circunstâncias quando comecei as minhas reflexões sobre a situação nos Balcãs.
Não me sinto muito confortável com o apodo de "jornalismo em banda desenhada", porque acredito que as minhas histórias possam ser mais rapidamente associadas a poemas do que a eventos reais. A minha verdade é emocional, mesmo quando penso sobre a situação política. Sou demasiado pessoal, mesmo quando represento o clima social que me rodeia.
Sobretudo, gosto de me concentrar no absurdo e no humorístico, e por isso talvez não seja uma pessoa tão objectiva como um jornalista deve ser. Já para não falar da minha obsessão com sonhos e visões. Eu sensibilizo-me, choco-me com a realidade - tal como toda e qualquer pessoa que tenha vivido na Sérvia na última década.

Sempre me diverti com a ideia de permitir à consciência-onírica a criação de arte. Preferi concentrar-me no tal "estado hipnagógico" - este é o estado em que se entra imediatamente antes de se adormecer, ou quando se acorda lentamente, e é aí que se têm sensações visuais particularmente fortes e que diferem dos sonhos durante o período de MRO ("movimento rápido do olho"). Alguns teóricos chamam a este estado a "zona crepuscular", em que a nossa consciência vê uma espécie de "diapositivos", em oposição aos "filmes" que se experimentam através dos sonhos.
Tenho de chamar a atenção de que muitas das minhas alucinações hipnagógicas não são de todo visuais. Às vezes são tácteis ou auditivas, e numa ou outra ocasião são como que filmes curtos, um pouco mais alongados que simples "diapositivos". Também me lembro de ter tido algumas alucinações hipnagógicas que são como que ideias ou conceitos que surgem de repente de parte nenhuma da minha cabeça. Usei muitas delas nas minhas bds. Tenho uma colecção de centenas de desenhos baseadas nestas visões. A minha mulher já não se surpreende quando eu me levanto num ápice do meu sono, agarro num bloco de notas e desenho um esboço baseado numa alucinação de um meio-sonho que acabei de ter.
Às vezes, vejo também pequenas bds nesse estado hipnagógico, e têm a maior parte das vezes 2 ou 3 painéis, outras tantas uma página inteira, pequenos livritos de bd absolutamente misteriosos até para mim. Quando tenho estes clarões hipnagógicos, eles aparecem de uma espécie de espaço interior vazio, do silêncio. Sinto muitas vezes que o meu consciente tenta rejeitar estas visões, como se fossem algo que não merece ser relembrado de forma alguma; tenho de fazer um grande esforço para conseguir alcançar o bloco de notas e fazer o tal esboço. Habitualmente surpreendo-me quando consigo capturar essa visão, porque me é estranha, como se partisse de um fonte desconhecida dentro de mim mesmo.
Já notei que, quando começo a concentrar-me nestas visões, elas tornam-se cada vez mais frequentes. Estas visões fazem parte da minha rotina diária. Notei também ao mesmo tempo que, à parte uns quantos artistas e psicólogos, a maior parte das pessoas nem sequer se apercebe da existência deste chamado "estado hipnagógico". Acho que é porque não existe qualquer tipo de estrutura social que tome nota destas imagens semi-sonhadas. Mas consigo imaginar facilmente uma sociedade ciente das visões hipnagógicas, que as tornasse um hábito social.
Tornei-me também, durante um período curto da minha vida, capaz de entrar em estados lúcidos de sonho. Aprendi a técnica de olhar para as minhas mãos enquanto sonho, o que servia de lembrança de que estava a sonhar. Isto permite-me manter uma mente crítica enquanto se mergulha num estado de sonho profundo. Estas experiências de sonhos lúcidos aumentaram a minha compreensão das possibilidades do estado de sonho.
Tudo me levou a crer que existem outros estados de sonho dos quais nem sequer temos ainda ideia. Acredito que se toda a humanidade se concentrasse mais nos seus estados de sonho no futuro, que a nossa definição e compreensão dos sonhos se alteraria. No passado explorámos os ambientes que nos rodeiam, carteámos todos os continentes do planeta. Mas no futuro temos de explorar as paisagens das nossas mentes, e dos nossos mundos interiores.
Acredito que os sonhos são dimensões do nosso próprio ser, tão "reais" e misteriosos como outra qualquer. Se alguém te perguntar como são os teus sonhos, a tua resposta deveria ser sob a forma de um poema, de uma piada, pois qualquer outro tipo de expressão seria pretensioso.

Acredito que o meu trabalho expressa verdades muito simples, com a sofisticação de um homem das cavernas. Ou seja, sem sofisticação alguma.

Se sentir que algo está errado, tentarei expressá-lo, não importa quão marginal seja considerado o meio que utilizo... Ainda assim, acho que a forma como comunicamos estas coisas através da arte é bem diferente de, por exemplo, um debate político, Seria algo risível fazer uma bd com a mensagem: ABAIXO COM MILOSEVIC! ESTE GAJO É UM ASSASSINO! ELE FEZ TUDO ERRADO!, mesmo que tenha dito isto muitas vezes à minha mulher ou o tenha gritado em manifestações... Por alguma razão, não vejo um grande desafio em fazer uma bd à volta de conclusões tão óbvias. Por outro lado, eu queria fazer bds que falassem sobre um tempo específico no meu país, e fiz um retrato psicológico do que é ser-se um tipo qualquer a viver nos subúrbios de uma pequena cidade durante o "reino" de Milosevic. Quer dizer então que o meu trabalho não foi suficientemente "panfletário" para ter inspirado qualquer tipo de censura e, ao mesmo tempo, se quisesses, poderias chegar a essas mesmas conclusões ao ler estas bds.
É evidente que eu me senti também desanimado com o envolvimento do Ocidente neste assunto: a maior parte do que se fez estava errado. Só para citar alguns exemplos, o embargo económico apenas fortaleceu o regime de Milosevic, em termos de força, de controlo, ao passo que todos os que se opunham ao seu regime é que sofreram as consequências. Já para não falar dos bombardeamentos na Sérvia, que mataram inocentes, destruíram infra-estruturas civis, a economia do país, e simplesmente alterou a natureza dos problemas dos Balcãs, em vez de os resolver. Óbvio, eu apresentei estes temas através das minhas próprias experiências... é apenas banda desenhada, uma espécie de banda desenhada autobiográfica.

Seja como for, acho que se contares uma história de uma forma simples, espelhando a condição humana primária, ninguém te poderá censurar. O meu exemplo preferido é um autor italiano chamado Curzio Malaparte, que escreveu estas reportagens durante a II Grande Guerra... anotava somente as suas observações, sem expor quaisquer princípios ideológicos, mas conseguiu demonstrar realmente o absurdo e a estupidez da guerra. E ele fê-lo durante o regime de Mussolini!
O que agora parece ser absolutamente impossível. Por mera coincidência, Malaparte esteve na minha terra, Pancevo, durante o bombardeamento alemão da Sérvia em Abril de 1941. Ele veio a Belgrado, então reduzida a cinzas, acompanhando a primeira unidade do exército de ocupação - ele descreveu a cidade em ruínas, a imagem de um autocarro local cheio de cadáveres... Coisas que, basicamente, dispensam comentários.
Também é óbvio que ninguém leva a banda desenhada a sério. Mas penso ser essa uma das suas vantagens: os artistas de bd são mais livres para tomar uma posição crítica, irónica, quem sabe se até mega-cínica em relação à sociedade em geral.

Durante a crise nesta parte do mundo, quando se pensa que é demasiado difícil para continuar, sempre nos podemos voltar e ver outras pessoas em situações piores que a nossa, por isso de que nos serve estar a choramingar? Afinal de contas, consegui provar (a mim mesmo, pelo menos) que é possível fazer qualquer coisa de criativo e construtivo mesmo quando as condições não são favoráveis. É até por vezes mais excitante fazer isso do que pensarmos em fazer dinheiro. Consegui ir sobrevivendo acumulando as pequenas somas que recebia por publicar as minhas bds nas várias revistas independentes...
Uma crise também nos pode ensinar a utilizar o nosso dinheiro de uma forma muito mais económica. Entre 1992 e 95, tive grandes dificuldades em arranjar papel de arte, mas descobri que o papel de calendários de parede poderia ser utilizado com o mesmo propósito, por isso muitas das minhas bds da altura foram feitas na parte de trás de calendários desses... Os meus amigos sabiam que eu precisava de calendários, por isso traziam-me alguns já velhos. Isto não é uma tragédia, é até bem divertido estar a ver algumas das minhas bds que falam sobre a vida sob sanções ou coisa que o valha, virá-las, e ver uma foto de uma gaja nua do outro lado! Também recebi estímulos de vários artistas estrangeiros, especialmente dos EUA. Há qualquer coisa de especial na cena da bd americana, em que é relativamente aberta a autores de fora. Posso dizer que nunca fui tratado como um forasteiro, um estrangeiro; na Europa, as pessoas são muito mais fechadas na sua própria cultura, país ou região...
Muitos desses artistas (como por exemplo, Jim Woodring, Mark Martin, Rick Veitch, Robert Crumb, entre outros) foram generosos o suficiente ajudando-me a continuar a entregar os meus trabalhos para publicação em editoras norte-americanas. Além disso, eu estava, e estou ainda, em contacto com o mundo permanentemente variável da produção de bd alternativa, pequena, obscura, de auto-edição, etc. Muito material interessante multiplica-se através de máquinas fotocopiadoras e distribuídas por correio...
Às vezes, foi-me muito difícil manter correspondência com o estrangeiro durante a guerra e as sanções económicas, chegando mesmo a ter perdido algumas dessas cartas. Ouvi dizer que uma catrafada de correio simplesmente desaparecia em alguns momentos, por variadíssimas razões. Muitos países impuseram restrições de peso ao correio destinado à Sérvia durante as sanções. Mas mesmo assim, muita gente continuava a enviar-me cartas e bds, o que foi fantástico. Adoraria poder agradecer a todos! Nunca me esquecerei de um pacote de bds que me foi enviado pela artista britânica Lee Kennedy. Ela teve que escrever uma nota para os oficiais aduaneiros que dizia qualquer coisa como: "Eh, pá! Deixem lá passar este pacote que isto é só banda desenhada!". E por vezes isso fazia com que passassem de facto!

Quanto aos bombardeamentos da NATO... eu escrevi uma história intitulada "Half Dream Experience" ("Experiência de Meio-Sonho"), por volta de 1994. A história foi-me inspirada pelos planos apresentados (e efectuados) de bombardeio a certos alvos na Sérvia, durante a guerra de 92 na ex-Jugoslávia. Mas estes devaneios foram despoletados pela recordação de uma estranha visão hipnagógica que eu tivera muitos anos antes da guerra, sobre um hipotético bombardeamento de Pancevo...
Nunca poderia ter imaginado que essa ideia, apresentada meio a brincar, pudesse anos mais tarde tornar-se realidade… Desde o início dos bombardeamentos da NATO, a 24 de Março de 1999, um dos alvos principais foi realmente a cidade de Pancevo, e consegui ver todos eles desde a janela do meu apartamento. A fábrica na zona industrial de Pancevo, descrita nessa história, foi metodicamente bombardeada durante muitos dias, na minha realidade de 1999... A única diferença era que eu predissera que bombardeariam a fábrica que se encontra avizinhada ao nosso prédio, mas na realidade escolheram uma outra, da mesma companhia, a Companhia Aérea Utva, umas quantas milhas mais a norte.
Seja como for eu e Gordana, a minha mulher, decidimos não correr para o abrigo antiaéreo durante os ataques, e por isso pude observar tudo desde as janelas da nossa casa, e pela coincidência mais estranha do mundo, eu vi o exacto momento em que uma nuvem em forma de cogumelo vermelho se espalhou por sobre a nossa cidade... Uma imagem que me afectou profundamente. Acredito que o poder vibrante dessa experiência terrível tivesse sido prevista 11 ou 12 anos antes...
Viver sob bombardeamentos era como se se vivesse sob a sombra de um espírito malvado. É essa a melhor forma de o explicar, mesmo que esteja utilizando outra vez os termos de um homem das cavernas.

Uma vez que eu vivo na Sérvia, é mais que natural que me sinta parte da herança da Europa de Leste. Mas como a maior parte das minhas bds mais recentes são publicadas em revistas nos Estados Unidos, estou também ligado à tradição americana da bd. Além disso, gosto muito de construir os meus próprios mundos, com as suas próprias regras e tradições. Quando era miúdo, passava anos e anos a fazer desenhos dos meus universos imaginários.
Bom, mas já que estou a falar do "gostinho especial" à Europa de Leste no meu trabalho, tenho que dizer que acho que os artistas desta parte do mundo partilham um certo sentido do absurdo - o de que vivemos num mundo em que as coisas estão um pouco fora de controlo, e que a atmosfera é, em geral, irracional. Isto está bem longe da visão da Europa Ocidental, um mundo pomposo e seguro, em que todos os valores e regras estão confortavelmente definidos desde há séculos. Essa atmosfera irracional, num mundo habitado por coisas sem sentido, é algo que me aproximou do centro do mistério.
Infelizmente nós somos, os humanos, umas criaturas miseravelmente preguiçosas e precisamos normalmente de uma certa dose de choque ou stress para nos fazer pensar quem somos e porque vivemos. Acho que viver na Sérvia ensinou-me a não admitir nada como autêntico: quer as nossas sociedades, quer as nossas civilizações, religiões, crenças... estas não são simplesmente grandiosos monumentos aos quais devemos consagrar toda a nossa fé. Como eu não habitava cidades bonitinhas, belos edifícios e um mundo estimulante cheio de oportunidades, tive que mergulhar em mim-mesmo, para procurar essas dimensões "psicológicas" dentro de mim. Sim, creio que o mundo "invisível" está interligado ao mundo da "vigília", da realidade, e tive algumas experiências bem estranhas. Mas não devo mistificar, pois a simples verdade é que a nossa realidade é tanto mais ampla do que a julgamos habitualmente.

Fui bastante influenciado por muitos artistas russos. O meu escritor favorito é Alexei M. Remizov. Esta foi de facto uma pessoa única. Remizov passou a maior parte da sua vida em Paris, para a qual se mudou após a Revolução, esquecido e incompreendido por toda a gente. Nos anos finais da sua vida, estava meio-cego e pobre, escrevendo uma enormidade de trabalho que se multiplicaram em alguns livros, distribuídos por entre amigos. Remizov criou algumas peças literárias inusitadas, e acontecimentos realistas, nos seus romances, são bruscamente interrompidos pelas descrições de sonhos, ou descrições de demónios ou outras criaturas fantásticas provindas da mitologia eslava, que ele apresenta como parte integrante da realidade vulgar.
Há algo de profundamente barbárico na própria natureza de nações como a Sérvia e a Rússia... nunca se adaptaram às regras da civilização moderna, apesar de serem parte da herança cultural geral da Europa. Alguns desses aspectos estão presentes nas minhas bds, penso. As minhas bds são um produto de um trabalho espontâneo, e sou tanto influenciado pela arte pré-histórica como pelas bds "underground" modernas.

A queda de Milosevic foi um acontecimento importante, muito dramático. Atenção, Milosevic foi derrubado pelas manifestações massivas das pessoas, logo após a greve geral. Durante as últimas manifestações no centro de Belgrado, havia qualquer coisa como 500 mil ou mesmo um milhão de pessoas... Elas estavam cheias de raiva, algumas entusiasmadas, mas ouvi de muitas delas também que estavam prontas a morrer ali mesmo, nas ruas, naquela noite. E isto não era apenas uma frase da boca para fora, pois estas pessoas tinham aquele olhar estranho que te fazem aperceber de que não estão a brincar. Algumas estavam mesmo armadas. Tenho de admitir que esperava ver algum derramamento de sangue, algum confronto entre os manifestantes e a polícia de Milosevic. Quando a polícia começou a disparar as latas de gás, a Gorana e eu estávamos no meio das pessoas que fugiam das unidades anti-manifestação, com armadura completa e tudo. Só mais tarde é que entendi que estávamos a fugir afinal de uma unidade que se retirava, o que significava que estávamos a ser perseguidos no fundo por uma outra secção de manifestantes atrás dos polícias! Mais tarde, como se sabe, o edifício da Assembleia Nacional estava a arder, mas tudo acabou sem que morresse alguém, o que foi de uma extrema importância. Foi a primeira revolução na história dos Balcãs feita sem violência. Mas esta acção não representa o fim dos problemas e as atribulações dos Balcãs, por isso continuo a trabalhar sob a inspiração da nossa realidade em particular...

Não faço a mínima ideia de onde vêm as molduras denteadas e as formas intercaladas nas minhas bds. Mas na verdade sempre adorei aqueles "desenhos intercalados" que se vê no Krazy Kat do George Herriman...Sempre me pareceu ser como que um elemento irracional, que não estava associado directamente à história, aos acontecimentos. Gosto de pensar que há algo no meu trabalho que não é utilitário, algo que está ali simplesmente para descontinuar a previsibilidade da forma.
A vida está cheia de surpresas, sempre seremos surpresos por elementos que são lançados dentro da esfera das nossas experiências para estilhaçar a nossa inércia. Acho que a forma como crio as minhas bds é um pouco assim.

In catálogo "Dreamtime/Wartime: The Comics of Aleksandar Zograf", 2002, The Cartoon Art Museum, San Francisco